sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

HAICAI 28A





Pinha florescida
florescem ao chão os pinhões
e no azul as gralhas

Lilian Reinhardt

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Este Presépio


pintura/Langue de Morretes
(1953)



Do meu amor eu não o canto a Babel
nem o vejo no delírio do povo
este tabernáculo é quintal
e guarda o meu pé de sabugueiro as floradas
da minha criança
bebo da losna amassada
escrevo com cunha de pinhão e derramo
do cálice esta pinha desfolhada
pinta a manjedoura do céu a pomba a estrela guia da araucária
Este presépio é pastor das minhas ovelhas


Feliz Natal!
Próspero e Abençoado Ano Novo de 2011!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

MORADA DE VAGALUMES



Lilian Reinhardt


(líricas de um evangelho insano)



Fagulhas do paiol, no dorso negro do céu crepitam as lavas.

No coração triste do caboclo o palheiro acende e apaga,

os vagalumes do tempo de sua morada!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

AMOR E SOLIDÃO


pintura/Van Gogh




Iratiense Joel Gomes Teixeira

As chamas crepitavam no fogão de barro e na panelinha preta e amassada borbulhavam os grãos de feijão entornados em caldo grosso.Pendurados numa ripa a rodela de linguiça e um manto de touçinho envolviam-se na fumaça que se erguia da lenha de bracatinga.
Tarde fria de outono...Sentado à boca do fogão,o velhinho era a personificação do abandono vivendo a solidão do fim do dia,naquela hora em que o céu aquieta-se entristecido e retornam caladas as últimas curucacas.
O olhar passeando pelas tábuas encardidas da parede...Uma caneca pendurada ali,um guarda chuva velho acolá,uma latinha de azeite de onde levanta-se em riste uma "espada de São Jorge"...Tudo tão familiar,tudo melancólico e vazio.Num dos cantos o quadro emoldurado...O casal!...Ela trazendo os cabelos presos,é jóvem ainda,e preserva aquêle ar de riso caboclo,acabrunhado,de quem fêz pôse ao retratista.O jóvem ao seu lado,tem os cabelos bem penteados,um bigode vistoso e um ar de felicidade.
Seus olhos,estáticos agora,sorvem aquêle retrato com a saudade de seus melhores dias.O casebre era o mesmo.Pobre em suas formas,acabrunhado em seus pertences...Rico em vivências! A jóvem senhora do retrato percorria os espaços com seus detalhes femininos,as flores brotavam ao redor das janelas e o feijão entornado em caldo grosso era servido à mesa como um autêntico manjar.
Um dia ela partiu e o casebre nunca mais foi o mesmo.O jasmineiro continuou a escorrer seus cheiros pelos desvãos da cêrca , saudoso do tempo em que o casal cruzava alegre pelo portão de entrada.

Em busca de melhores condições de vida,foram-se os vizinhos e aos poucos a aldeia foi ficando vazia.O velhinho achou por bem permanecer ali.Quase ninguém lhe visita e êle,resignado,entre uma baforada e outra no palheiro,encontra agora no crepitar das chamas o calor que aqueçe-lhe a alma solitária.
À noite,seu olhar procura o céu.Vez e outra,uma estrela cadente entra pelas janelas abandonadas das casas da aldeia,e seu coração dispara!...Alguma coisa lhe diz que a môça do retrato retornou num feixe de luz...Adormece varado de constelações e quando brota um novo dia,tudo recomeça em seu casebre.


Iratiense Joel Gomes Teixeira
Publicado no Recanto das Letras em 14/09/2010
Código do texto: T2498501

domingo, 11 de julho de 2010

P R E C E


pintura/Jean François Millet






Iratiense Joel Gomes Teixeira


Cintila o verde ao sol de novembro
Manhã de domingo,trajes de linho!
Carroça vermelha,no assento a velhinha
Na alva cabeça,um branco lençinho


Ao longo das leiras se deitam espigas
É o milho,é o trigo,na dança dos ventos
Acenos sublimes,sutis oferendas
Milagres de grãos gerando alimentos


Colinas e vales,cruzando a ponte
Agora a carroça se faz triunfal
A safira dos olhos alcança o horizonte
Mas o coração fica no milharal


Da torre da igreja dobram-se os sinos
Num eco de fé que aos fieis enternece
E aquela velhinha de passos miudinhos
Aos olhos do mundo,já é uma prece!




Publicado no Recanto das Letras em 25/06/2009
Código do texto: T1667467

domingo, 27 de dezembro de 2009

AMANHECENTE



Lilian Reinhardt

Queria passear de mãos dadas
com a palavra sem conceitos
queria transformar as pedras
em colméias
e gritar a Deus no céu do trovão
que o menino é sempre passarinho
e dá de beber na janela do mundo
a todos os versos
até embriaga-los para
acordar como Manoel de Barros
as cores do amanhecer
acordar as águas das fontes
revigorar os pés cansados dos montes
e calçar-lhes novas sandálias
para não tropeçar no zênite
levitar sobre a nomenclatura dos vermes
que esgarçam a palavra
no frenesi dos abismos
dizer da alvura das tempestades
além da escuridão
da gravidade da luz
em todas as idades
dar de beber ao cântaro
carregado de ansiedades
que fermenta as leveduras do chão
e sempre sorver de água fresca de verbos
recém –colhidos
queria assim...