quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A V I Ú V A




IRATIENSE JOEL GOMES TEIXEIRA



O movimento no armazém da Polaca ,hoje , não poderia ser melhor.Das duas portas largas de entrada por onde penduram-se alumínios,cachos de bananas e alguns cabides com peças de vestuário pode-se ver a cancha de \"bocha\" repleta.Os fregueses decidem em duplas os arremessos das pesadas bolas de madeira maçiça diante de olhares fanáticos distribuidos ao longo das laterais da cancha de areia torcendo pelos seus favoritos.
\"Anuxka-Caixeirinha\",como lhe chamam,incansável ,repõe as cervejas,as batidas e os martelinhos de cachaça pura que reforçam o entusiasmo da torcida.
Não param de chegar :colonos e peões.Os primeiros aportam em carroças coloridas.Os bancos encobertos , confortavelmente , em \"pelêgos\" de lã de carneiro na cor de laranja.A grande maioria vem acompanhada das mulheres e filhos. Os peões amarram os bem cuidados cavalos aos troncos das araucárias e rapidamente vão adentrando à venda.
No interior do estabelecimento:um alvoroço!...Falam todos ao mesmo tempo...Enquanto alguns são atendidos ao longo dos balcões os demais formam pequenos grupos a trocar idéias,falar de lavouras,saber das novidades....Os rostos encobertos pela fumaça dos palheiros tornan-se quase irreconhecíveis.Peões acotovelam-se junto ao balcão de bebidas por onde duas funcionárias não param um minuto.Num dos cantos vendem-se roupas,tecidos...A claridade do sol que entra pela vidraça reluz o brilho das bijouterias que as coloninhas provam em seus pescoçinhos alvos.A viúva Petrowska,dona do armazem,retira debaixo do tampo de vidro do balcão a última caixinha de pó de arroz para servir à freguesa e aproveita para chamar à atenção de sua gerente o descuido em deixar acabar um produto tão \"bom de venda\".
Katiuska Petrowski,êsse é na verdade o seu nome.Com a morte de seu esposo há mais de dois anos,seguindo um costume polonês de atribuir à viúva o sobrenome do finado , no feminino,passou a ser chamada \"Sra.Petrowska\" ou \"Viúva Petrowska\".É uma bela mulher.Beira os sessenta anos ,mas sua aparência não condiz com a idade que tem.Não é o que se pode definir como pessoa gorda.\"Cheínha\" é o termo que melhor se enquadra.A sua rechonchudez é muito bem distribuída nos seus um metro e setenta.Tem seios fartos e bonitos . Faz questão de deixa-los bem visíveis nos decotes de blusas muito colantes que costuma usar.Acompanhando as variantes de seu estado de espírito,em certos dias coloca no vértice do decote uma camélia de tecido que costuma ajeitar com frequência,já conhecendo a reação da \"piãozada\". Está sempre de saias largas,rodadas e , vez e outra,queixando-se dos pernilongos levanta-as bem acima dos joelhos para verificar (em) em suas bem torneadas e generosas coxas os \"terríveis sinais\" das picadas dos insetos.O sucesso junto ao público masculino é incontestável!...Mas ,por outro lado,é também muito querida pelas mulheres e especialmente pelas crianças a quem costuma fazer o seu \"Marketing\" oferecendo sempre uma balinha acompanhada de sua frase de efeito:\"Prá você,balinha de hortelã...Papai e mamãe de volta amanhã!\".É empreendedora e não perde a menor chance de faturar. A exemplo disso,agora no galpão ao lado,um grupo de empregados fazem a faxina. Empilham-se as sacas de cereais,varre-se e encera-se o assoalho para o baile que acontecerá à noite.Carpinteiros ajustam os últimos detalhes no pequeno palco para os músicos e improvisam balcões no botequim.Na cozinha estão bem adiantados os quitutes. Charutos de repolho,doces e guloseimas.Na fornalha rescende o cheiro dos frangos assados com farofa,as cucas recheadas,as bolachas de mel...Tudo para ser vendido durante o evento.Tôda esta agitação provoca na viúva uma certa ansiedade. Quer atender bem a todos e diante da impossibilidade,essa limitação desperta-lhe um apetite de leoa.Começa,então,a beliscar tudo o que lhe aparece pela frente.Abre o vidro de conserva e devora uma salsicha ao molho vinagrete. Um ôvo cozido também conservado ao vinagre...Um bom dia daqui,um\"Vai com Deus\" dali,e mais um
torresminho crocante,um gole na cachaçinha que faz a festa dos peões,uma cervejinha pra não \"desfeitear\" o cliente. Sem demora está corada. Sua pele lembra um lindo pêssego rosado!Os cabelos dourados e o par de olhos oscilando de um azul profundo ao verde esmeralda,enlouqueçem os peões. Excitados, erguem brindes intermináveis sem saber a quem ou a que.
Ciente do faturamento que a esta altura é dos melhores, a viúva comemora.Ergue o pequeno copo de canha e grita um \"Vivaaa!...\" Um coro de vozes responde e ela ingere mais um golezinho. Enganam-se ,porém, os peões achando-se favoritos da bela e rica viúva.Na verdade seu coração já tem um dono. Pertence à Jenauro. Caboclo,de aparência vistosa,capataz duma fazenda nas redondezas,que coincidentemente agora acaba de cruzar ao longo da coxilha numa distância considerável da casa de comércio.Segue em seu cavalo branco,num trote não muito apressado.O brilho de suas botas se faz luzir ao sol da manhã. O chapéu,fora da cabeça,preso ao barbicacho pende-lhe às .d
Destaca-se o vermelho do lenço sobre a camisa branca de mangas longas. Petrowska o vê passando. Num ímpeto desata a correr.Abre ,num empurrão, a portinhola do balcão e alcança a porta. A freguesia,abismada,fica a lhe observar sem entender o que está ocorrendo.A viúva mete dois dedos pela boca emitindo um assobio tão forte que parece rasgar a campina.Jenauro ,conhecedor dêste assobio,para o alazão. Atento, volta-se para o casarão de madeira.A voz de Petrowska , forte e decisiva,chega a ser quase autoritária:
Jenauro!...Não te esqueças: o \"ARASTA-PÉ\" é hoje à noite.Começa às nove ,não falte....Em voz baixa,quase sussurrada,arremata:\"QUERRIDO!\"
O capataz acena de longe,coloca o chapéu sobre a cabeça,e com a sua virilidade lisongeada ,arranha a espora no animal e sai num galope ligeiro.Ouve-se pela coxilha um grito de vitória:
_IiiiiiHuuuu!!!...
Em seguida,peão e cavalo,são engolidos pelo capão de mato.

Chega a noite. O galpão está repleto.Gaiteiros e violeiros acertam as últimas notas afinando os instrumentos.Jenauro já se faz presente.Conversa amistosamente com os demais peões e nem sequer imagina estar sendo observado pela viúva que por detrás da cortina de seu quarto na parte superior do casarão acha-lhe o mais encantador dos homens.Seu coração apaixonado pulsa mais forte...Os seios fartos apertados no vestido vermelho arfam! expandem o aroma sensual de \"Hora Intima\" generosamente distribuido em partes estratégicas de seu corpo.
Olha-se uma vez mais no espelho.A mulher que lhe sorri do outro lado é bela,cheirosa e cheia de amor.Lampeja-lhe uma vaga lembrança do falecido. Faz o sinal da cruz...\"Que Deus o tenha\"."...E que \"possa eu, ter o meu Jenauro\".
Adentra ao galpão. Êste transformado agora em salão de baile.Tremulam as bandeirinhas coloridas.Risos e conversas vão-se misturando...Fazem-lhe a corte já na porta de entrada . Um dos colonos lhe estende a mão para que alcançe com maior facilidade o tronco de imbuia que improvisa o degrau.É cumprimentada,saudada com aplausos e os músicos a convidam então para \"abrir o baile\".Deverá escolher com quem dançar a primeira música.Peões e colonos fazem um círculo...Petrowska retira a camélia que traz entre os seios...Passará por cada um dêles,de olhos fechados,e aos pés de quem deixar cair a flor, será êste o felizardo.
Como se trata de um jogo de cartas marcadas,é evidente que a flor tem um destino certo para cair.
Cai aos pés de Jenauro.
O salão é agora só dêles!...O casal deslisa no chão parafinado.A melodia é chorosa.Lembra uma valsa,mas dada à qualificação da \"orquestra\",difícil é definir o rítmo executado.Logo outros pares ajuntam-se e o salão é literalmente tomado pelos dançantes.
A partir daí,Petrowska e Jenauro não mais são vistos.
Manhã seguinte.O casarão de madeira mergulha numa paz enternecedora.Tão sòmente as vozes esganiçadas das polaquinhas,ponteando as vacas,quebra o silêncio.
Petrowska levanta-se.Abre a janela e aspira o ar que tem cheiro de terra...Cheiro de guabirobas.
Um sabiá canta,entranhado na mata.Peões,embriagados,curam-se das ressacas esparramados na grama orvalhada.Uma das polaquinhas,erguendo o balde alumínio,grita-lhe do curral:
-\"Que dia liiindo!\"...
Petrowska,com aquela cara de pêssego recém colhido,acena afirmativamente com a cabeça e responde em voz alta:
-E eu acordei \"SORINDO!\"
Volta-se para o aposento e sorri,agora com dois \"érres\".
O quarto está em total desalinho.Calça e camisa,jogadas num canto,botas e chapéu no outro. O vestido vermelho,amarrotado,sôbre a profusão de frascos na penteadeira.
Jenauro,de bruço,ronca,contorçe os músculos,resmunga algo incompreensível.Vira-se de lado e,roncando ainda,mastigao esbôço de um prazeroso sorriso no canto da boca.
Petrowska,fascinada lhe observa.Então,num sussurro,diz para si mesma:
\"Como sou feliz!\"




http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=57640

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

HAICAI 28A





Pinha florescida
florescem ao chão os pinhões
e no azul as gralhas

Lilian Reinhardt

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Este Presépio


pintura/Langue de Morretes
(1953)



Do meu amor eu não o canto a Babel
nem o vejo no delírio do povo
este tabernáculo é quintal
e guarda o meu pé de sabugueiro as floradas
da minha criança
bebo da losna amassada
escrevo com cunha de pinhão e derramo
do cálice esta pinha desfolhada
pinta a manjedoura do céu a pomba a estrela guia da araucária
Este presépio é pastor das minhas ovelhas


Feliz Natal!
Próspero e Abençoado Ano Novo de 2011!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

MORADA DE VAGALUMES



Lilian Reinhardt


(líricas de um evangelho insano)



Fagulhas do paiol, no dorso negro do céu crepitam as lavas.

No coração triste do caboclo o palheiro acende e apaga,

os vagalumes do tempo de sua morada!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

AMOR E SOLIDÃO


pintura/Van Gogh




Iratiense Joel Gomes Teixeira

As chamas crepitavam no fogão de barro e na panelinha preta e amassada borbulhavam os grãos de feijão entornados em caldo grosso.Pendurados numa ripa a rodela de linguiça e um manto de touçinho envolviam-se na fumaça que se erguia da lenha de bracatinga.
Tarde fria de outono...Sentado à boca do fogão,o velhinho era a personificação do abandono vivendo a solidão do fim do dia,naquela hora em que o céu aquieta-se entristecido e retornam caladas as últimas curucacas.
O olhar passeando pelas tábuas encardidas da parede...Uma caneca pendurada ali,um guarda chuva velho acolá,uma latinha de azeite de onde levanta-se em riste uma "espada de São Jorge"...Tudo tão familiar,tudo melancólico e vazio.Num dos cantos o quadro emoldurado...O casal!...Ela trazendo os cabelos presos,é jóvem ainda,e preserva aquêle ar de riso caboclo,acabrunhado,de quem fêz pôse ao retratista.O jóvem ao seu lado,tem os cabelos bem penteados,um bigode vistoso e um ar de felicidade.
Seus olhos,estáticos agora,sorvem aquêle retrato com a saudade de seus melhores dias.O casebre era o mesmo.Pobre em suas formas,acabrunhado em seus pertences...Rico em vivências! A jóvem senhora do retrato percorria os espaços com seus detalhes femininos,as flores brotavam ao redor das janelas e o feijão entornado em caldo grosso era servido à mesa como um autêntico manjar.
Um dia ela partiu e o casebre nunca mais foi o mesmo.O jasmineiro continuou a escorrer seus cheiros pelos desvãos da cêrca , saudoso do tempo em que o casal cruzava alegre pelo portão de entrada.

Em busca de melhores condições de vida,foram-se os vizinhos e aos poucos a aldeia foi ficando vazia.O velhinho achou por bem permanecer ali.Quase ninguém lhe visita e êle,resignado,entre uma baforada e outra no palheiro,encontra agora no crepitar das chamas o calor que aqueçe-lhe a alma solitária.
À noite,seu olhar procura o céu.Vez e outra,uma estrela cadente entra pelas janelas abandonadas das casas da aldeia,e seu coração dispara!...Alguma coisa lhe diz que a môça do retrato retornou num feixe de luz...Adormece varado de constelações e quando brota um novo dia,tudo recomeça em seu casebre.


Iratiense Joel Gomes Teixeira
Publicado no Recanto das Letras em 14/09/2010
Código do texto: T2498501

domingo, 11 de julho de 2010

P R E C E


pintura/Jean François Millet






Iratiense Joel Gomes Teixeira


Cintila o verde ao sol de novembro
Manhã de domingo,trajes de linho!
Carroça vermelha,no assento a velhinha
Na alva cabeça,um branco lençinho


Ao longo das leiras se deitam espigas
É o milho,é o trigo,na dança dos ventos
Acenos sublimes,sutis oferendas
Milagres de grãos gerando alimentos


Colinas e vales,cruzando a ponte
Agora a carroça se faz triunfal
A safira dos olhos alcança o horizonte
Mas o coração fica no milharal


Da torre da igreja dobram-se os sinos
Num eco de fé que aos fieis enternece
E aquela velhinha de passos miudinhos
Aos olhos do mundo,já é uma prece!




Publicado no Recanto das Letras em 25/06/2009
Código do texto: T1667467